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Cannabis na esclerose múltipla: dor e espasticidade

Equipe IFPB

Quem convive com esclerose múltipla e tem dor intensa ou espasmos musculares que não cedem aos tratamentos convencionais provavelmente já pesquisou sobre cannabis medicinal. Três revisões sistemáticas mostram que canabinoides oferecem algum alívio nesses sintomas, mas os efeitos são modestos, variam de pessoa para pessoa e não substituem o acompanhamento neurológico. A prescrição parte sempre do médico.

O que é espasticidade e por que ela é tão incapacitante

Quem convive com esclerose múltipla (EM) conhece bem a sensação de músculos que "travam" sem avisar. Isso se chama espasticidade: uma rigidez persistente ou espasmos involuntários causados pelo dano que a doença provoca nos nervos que controlam o movimento.

Não é apenas desconforto. A espasticidade pode dificultar caminhar, dormir, realizar tarefas simples do dia a dia. E se combina, muitas vezes, com dor neuropática, aquela sensação de queimação ou choque que vem dos próprios nervos afetados.

Medicamentos como baclofeno e tizanidina são o ponto de partida do tratamento. Mas nem todo paciente responde bem a eles, e foi nesse contexto que os canabinoides passaram a ser estudados com mais atenção.

O que a pesquisa diz — e com qual grau de certeza

As evidências para cannabis na EM vêm de revisões sistemáticas publicadas em periódicos científicos reconhecidos.

Uma análise publicada no Current Neurology and Neuroscience Reports (Nielsen et al., 2018) reuniu cinco revisões da literatura e concluiu que os canabinoides podem ser eficazes para dor e espasticidade na esclerose múltipla, mas os efeitos são modestos. Os autores destacam que a magnitude do benefício varia entre os pacientes (DOI).

Uma revisão guarda-chuva publicada no BMJ em 2023, o tipo de estudo que agrupa várias revisões sistemáticas, concluiu com certeza moderada que canabinoides melhoram tanto a espasticidade quanto a dor em pessoas com EM. O mesmo estudo documentou aumento no risco de efeitos adversos: tontura, boca seca, náusea e sonolência (DOI).

Uma revisão farmacológica no BMC Medicine (Bilbao e Spanagel, 2022) analisou especificamente o nabiximols, um spray sublingual com THC e CBD em proporção definida, e encontrou evidência moderada para redução de espasticidade (DOI).

Juntando os três estudos: há respaldo científico real para o uso, mas não é certeza absoluta. O alívio costuma ser parcial, não total, e nada aqui substitui o tratamento neurológico de base.

Benefícios modestos — mas relevantes para a qualidade de vida

"Modestos" pode soar desanimador. O contexto, porém, muda a leitura. Para alguém que já tentou outras opções sem resultado satisfatório, uma redução nos espasmos noturnos, o suficiente para dormir melhor, pode representar uma mudança real no dia a dia.

A melhora na qualidade de vida é um desfecho legítimo e valorizado na medicina. Sono mais restaurador, menos interrupções por espasmos, menor necessidade de doses altas de outros medicamentos: esses ganhos têm peso concreto, mesmo quando os números dos estudos parecem modestos no papel.

O ponto é não criar expectativas irreais. A cannabis medicinal não reverte a doença nem elimina os sintomas por completo.

Efeitos adversos: o que esperar

Como qualquer medicamento, os canabinoides têm efeitos colaterais. Os mais relatados nas pesquisas são tontura (especialmente nas primeiras semanas de uso), boca seca, sonolência (que pode prejudicar concentração e direção) e náusea, geralmente transitória.

Esses efeitos variam de pessoa para pessoa e tendem a ser mais intensos no início do tratamento. O ajuste de dose feito pelo médico é fundamental para encontrar o equilíbrio entre alívio dos sintomas e tolerabilidade.

Pessoas com histórico de transtornos psiquiátricos, como psicose ou bipolaridade, devem conversar com cuidado redobrado com o neurologista antes de considerar qualquer canabinoide.

Como funciona o acesso por meio de uma associação

No Brasil, o acesso a medicamentos à base de cannabis é regulamentado pela ANVISA. A prescrição parte sempre do médico, e a dispensação pode ocorrer por farmácias autorizadas ou associações de pacientes sem fins lucrativos, como o IFPB.

Associações como a nossa funcionam dentro da legalidade e oferecem suporte para que o paciente compreenda o tratamento, acesse o produto de forma segura e mantenha o acompanhamento médico regular.

Se você ou alguém próximo convive com esclerose múltipla e quer entender como esse caminho funciona na prática, veja como funciona ou fale com a nossa equipe.


Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e não substitui a avaliação médica. Qualquer decisão sobre tratamento deve ser tomada em conjunto com o neurologista responsável pelo acompanhamento.